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Alessandro Buonopane*
 

Por anos, o Q-Day – o momento em que computadores quânticos serão capazes de quebrar a criptografia clássica – foi tratado como uma preocupação teórica e distante por conselhos de administração. Em 2026, essa percepção mudou radicalmente. A ameaça não é mais futura: ela já influencia decisões estratégicas de governos, bancos e grandes corporações. O motor dessa transformação é a convergência entre Inteligência Artificial (IA) e Computação Quântica, duas tecnologias que evoluem em ritmos exponenciais e que, juntas, têm potencial para tornar obsoletos os modelos atuais de proteção digital antes do fim desta década.
 

A aceleração quântica deixou de ser uma promessa de laboratório e entrou definitivamente na agenda geopolítica e corporativa. Governos e empresas estão investindo bilhões de dólares para acelerar o desenvolvimento de hardware e aplicações quânticas, enquanto avanços recentes aproximam cada vez mais a integração entre processadores quânticos e a infraestrutura de IA já existente. Não se trata de duas revoluções independentes. A computação quântica tende a ampliar a capacidade da IA para resolver problemas hoje considerados inviáveis, ao mesmo tempo em que ameaça a base criptográfica que sustenta transações financeiras, comunicações corporativas, sistemas de defesa e a própria economia digital. Um estudo projeta que, até 2029, avanços quânticos tornarão insegura grande parte da criptografia assimétrica utilizada atualmente.
 

O aspecto mais preocupante dessa transição atende pelo nome de “Harvest Now, Decrypt Later” (“Coletar agora, descriptografar depois”). A lógica é simples e perturbadora: criminosos, grupos patrocinados por Estados e organizações especializadas podem capturar dados criptografados hoje, armazená-los por anos e aguardar a chegada de computadores quânticos capazes de decifrá-los. Em outras palavras, informações estratégicas, registros financeiros, propriedade intelectual e dados pessoais roubados agora poderão ser expostos no futuro. Isso transforma a ameaça quântica em um problema presente, não em uma preocupação da próxima década. O desafio é agravado pelo fato de que grandes organizações podem levar anos para identificar e substituir todas as instâncias criptográficas vulneráveis espalhadas por seus ambientes.
 

Enquanto a computação quântica prepara uma ruptura estrutural, a IA já altera o equilíbrio de forças na cibersegurança. A mesma tecnologia que acelera o desenvolvimento de software e aumenta a produtividade das equipes também reduz o custo, o tempo e a especialização necessários para ataques sofisticados. Relatórios recentes apontam que a América Latina registrou o maior crescimento regional em ataques digitais entre 2025 e 2026, impulsionado pela combinação entre ecossistemas criminosos já consolidados e ferramentas de IA Generativa capazes de automatizar atividades antes reservadas a especialistas altamente qualificados.
 

O problema torna-se ainda mais complexo porque a velocidade de geração de software supera a capacidade de validação dos controles tradicionais. Ou seja, o código produzido com auxílio de IA introduz vulnerabilidades em uma parcela significativa das tarefas analisadas e pode gerar mais problemas de segurança do que abordagens convencionais quando não há governança adequada, como destacado por um levantamento. Ao mesmo tempo, novas modalidades de ataque exploram comportamentos específicos dos modelos, desde a distribuição de pacotes maliciosos inspirados em alucinações de IA até o vazamento inadvertido de credenciais. As equipes de segurança passam a dedicar grande parte do tempo à triagem de alertas e falsos positivos, enquanto o volume de código continua crescendo em velocidade exponencial.
 

Outro fator frequentemente negligenciado é a explosão das chamadas identidades não humanas. A ascensão da IA Agêntica está multiplicando credenciais associadas a agentes autônomos, APIs, contas de serviço, tokense sistemas automatizados. Em algumas organizações, a proporção entre identidades não humanas e humanas já supera 100 para 1. Essas credenciais frequentemente possuem privilégios excessivos, são pouco auditadas e se tornam alvos altamente atrativos para atacantes. Não por acaso, violações relacionadas a identidade digital figuram entre os principais vetores de comprometimento corporativo, ampliando riscos financeiros, operacionais e reputacionais.
 

Diante desse cenário, a resposta não passa apenas por adquirir novas ferramentas de segurança. A convergência entre IA e computação quântica exige um novo modelo operacional baseado em visibilidade contínua, automação inteligente e proteção em tempo real. Companhias mais maduras estão mapeando suas exposições criptográficas, adotando princípios de privilégio mínimo para agentes autônomos, implementando mecanismos de supervisão para sistemas de IA e iniciando a migração para algoritmos resistentes a ataques quânticos. A defesa precisa evoluir na mesma velocidade dos sistemas que pretende proteger.
 

A principal lição para lideranças e conselhos é que esperar pela maturidade completa dessas tecnologias pode ser o erro mais caro desta década. O tamanho da organização não garante imunidade; em muitos casos, apenas amplia a superfície de ataque e o custo de recuperação. A convergência entre IA e Computação Quântica representa uma oportunidade extraordinária para inovação, produtividade e geração de valor. Mas ela também inaugura uma nova era de riscos. As organizações que começarem agora a mapear sua exposição, testar criptografia pós-quântica, desenvolver competências em segurança para agentes autônomos e fortalecer sua governança digital estarão mais preparadas para atravessar a ruptura que se aproxima. As demais podem descobrir tarde demais que a cibersegurança do passado já não é suficiente para proteger os negócios do futuro.
 

*Alessandro Buonopane é CEO Brasil e LATAM da GFT Technologies

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SOBRE O BLOG INDUSTRIAL

O Blog Industrial acompanha a movimentação do setor de bens de capital no Brasil e no exterior, trazendo tendências, novidades, opiniões e análises sobre a influência econômica e política no segmento. Este espaço é um subproduto da revista e do site P&S, e do portal Radar Industrial, todos editados pela redação da Editora Banas.

TATIANA GOMES

Tatiana Gomes, jornalista formada, atualmente presta assessoria de imprensa para a Editora Banas. Foi repórter e redatora do Jornal A Tribuna Paulista e editora web dos portais das Universidades Anhembi Morumbi e Instituto Santanense.

NARA FARIA

Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), cursando MBA em Informações Econômico-financeiras de Capitais para Jornalistas (BM&F Bovespa – FIA). Com sete anos de experiência, atualmente é editora-chefe da Revista P&S. Já atuou como repórter nos jornais Todo Dia, Tribuna Liberal e Página Popular e como editora em veículo especializado nas áreas de energia, eletricidade e iluminação.

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